Uma salva de palmas para… Benedito Ruy Barbosa

Hoje, nos despedimos de um dos maiores autores da nossa teledramaturgia (com uma dedicatória no fim a uma jovem repórter que se foi no mesmo dia)



Sempre que havia em cena algum italiano, no meio de uma fazenda, brigando com um caipira, muita gente, ao se questionar quem estava escrevendo aquela novela, perguntava: “Mas será o Benedito?” Às vezes, sim. Benedito Ruy Barbosa, nascido a 17 de abril de 1931 em Gália, pequena cidade localizada no Centro-Noroeste de São Paulo, e que as complicações de insuficiência renal crônica levaram aos 95 anos na manhã desta terça-feira 07 de julho, sabia como poucos dominar a arte de escrever uma novela rural com questões sociais pertinentes para a época que escrevia.

O site Notícias da TV explana um pouco mais da carreira e da vida de Benedito antes da carreira na TV aberta, na qual vamos nos focar. Curiosamente, a primeira novela que o dramaturgo escreveu como autor principal não era rural e nem mesmo própria: Somos Todos Irmãos (1966), da TV Tupi, era uma adaptação do livro A Vingança do Judeu, de J. W. Rochester. Aliás, nem era pro Benedito ter escrito. Segundo conta o professor Xavier, no site Teledramaturgia, o autor era pra ser Walter George Durst, cujo texto não foi aprovado pela comunidade judaica por ser “antissemita”, além, é claro, de usar o mesmo nome do livro adaptado. Só que, mesmo com a novela no ar, com outro autor, outro texto e outro nome, apesar do sucesso inicial, a comunidade judaica implicou. Como relata o Boni em seu primeiro livro, o Centro Israelita-Brasileiro Bene Herzl, do Rio de Janeiro, pressionou a censura pra que se alterasse o horário da novela, de 20h para 22h30.

Escreveu mais uma novela para a TV Tupi ainda em 1966, foi supervisor de quatro novelas para a Excelsior em 1967, voltou pra Tupi em 1968 pra escrever mais uma novela e depois foi pra Record escrever mais duas, das quais a segunda, Algemas de Ouro (1969), foi o primeiro sucesso estrondoso de Benedito. Todavia, Benedito não terminou de escrever a novela, voltando pra Tupi, de onde Dulce Santucci saiu pra continuar o serviço dele, inclusive pedindo referências a ele sobre como ele queria que a novela terminasse. Na Tupi, ele escreveu só mais uma novela, a adaptação de Simplesmente Maria (1970), que foi um boom três anos antes na Argentina, já havia sido adaptada no Peru com grande sucesso e seria adaptada mais quatro vezes na América Latina após a versão brasileira.

Em 1971, ele foi contratado pela TV Cultura pra ser assessor especial e foi lá que escreveu sua primeira novela rural: Meu Pedacinho de Chão, que ganhou um remake extravagante em 2014 (e que poderia ser reprisado justamente pela Cultura). A novela teve uma enorme repercussão mesmo quando reprisada pela Rede Globo, que demorou cinco anos pra contratar Benedito. E contratou pra escrever o quê? Adaptações de livros, justamente do mesmo jeito que ele começou a escrever novelas. Das três primeiras novelas que escreveu na Globo pro horário das seis, a que mais fez sucesso foi Cabocla (1979), baseada no romance de mesmo nome de Ribeiro Couto.

Quando faltavam dois meses para acabar Cabocla, ao ver que a produção da sucessora Olhai Os Lírios do Campo atrasou, a Globo pediu pra que ele esticasse a novela, escrevendo mais alguns capítulos. Ele não quis. A Globo se obrigou a reprisar, em compacto, Escrava Isaura. Aí a Globo pediu pra que ele escrevesse o último capítulo de Os Gigantes, novela que selara algum tempo antes a demissão de Lauro César Muniz. Ele não quis. A tarefa ficou nas mãos da competente Maria Adelaide Amaral. A última coisa que ele escreveu na Globo antes de ir pra Bandeirantes foi sua carta de demissão.

Na Bandeirantes, Benedito escreveu, a princípio, Pé de Vento, uma novela urbana, pungente, que acredito que faria um barulho bom nas redes sociais se a Band a disponibilizasse na íntegra no Bandplay. E foi depois desta que veio a novela que ele tanto queria escrever: Os Imigrantes. O estrondoso sucesso da saga dos três Antônios era pra ter sido levado a cabo na Globo, não fosse por causa de outro gênio: Dias Gomes. Benedito contou, em depoimento aos autores André Bernardo e Cíntia Lopes para o livro “A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo”, que a Globo mandou Dias ler a sinopse e os seis primeiros capítulos da novela. Leu, mas escreveu um bilhetinho, dizendo que a Globo, no momento, não precisava da história, e recomendando que fosse guardada para o futuro porque “é uma novela de sucesso garantido”.

E Dias não errou. Benedito foi falar com Borjalo, um dos muitos braços-direitos de Boni na Globo, que fez questão de devolver-lhe a sinopse de Os Imigrantes. Passado o tempo, Benedito mostrou Os Imigrantes a Walter Avancini, que parecia sempre estar à frente de seu tempo, e Walter, então diretor artístico da Bandeirantes, aprovou na hora. Resultado? Índices que a Bandeirantes só repetiria com transmissões esportivas anos depois, sete prêmios APCA entre 1981 e 1982 e Troféu Imprensa de melhor novela de 1981, entre outras premiações de igual categoria. Mas o padrão se repetiu: com 312 capítulos escritos divididos em quatro fases, Benedito já tava com burnout (na época, chamavam de estafa). Largou a novela de mão e voltou pra Globo.

No lugar dele, a partir do capítulo 313, entraram Wilson Aguiar Filho, dramaturgo que não vinha tendo tanta sorte como autor titular de novelas na Globo e havia acabado de dividir com o psicanalista Roberto Freire a autoria da fracassada O Amor é Nosso (e nesta ambos foram substituídos por Walther Negrão), e Renata Pallottini, dramaturga experimentada que também vinha da Globo, mais precisamente do roteiro das aclamadas séries Malu Mulher e Carga Pesada. Benedito desceu a lenha nos dois na imprensa.

De volta à Globo, Benedito voltou consequentemente pro horário das seis. Com a saída de Herval Rossano, que foi se aventurar como diretor na TVN, do Chile, Benedito foi incumbido de escrever a primeira novela de texto 100% próprio do horário: Paraíso. A saga da paixão entre o “fio do demo” e a “santinha”, como descrevia a beata Mariana, interpretada com maestria pela sempre competente Eloísa Mafalda (e que acabou a rotulando para papéis posteriores), foi a saída que Benedito encontrou pra tirar da reta O Povo Na TV, do SBT, que chegava a dar 20 pontos no IBOPE. E deu certo.

Após o fracasso de Voltei Pra Você (1983), uma continuação sem pé nem cabeça de Meu Pedacinho de Chão, e da idealização de argumento da igualmente fracassada De Quina Pra Lua (1985), a qual Alcides Nogueira só escreveu porque Benedito estava comprometido com o teatro, Benedito voltou por cima: em 1986, adaptou o romance Sinhá Moça, de Maria Dezonne Pacheco Fernandes, trouxe de volta Lucélia Santos e Rubens de Falco como vítima e algoz e, apesar das mudanças frequentes de horário por causa da Copa do Mundo realizada no México, fez uma novela à altura de Escrava Isaura e conquistou o público mais uma vez.

Nesse meio tempo, Benedito viajou com Herval Rossano e Atílio Riccó pro Pantanal. Rossano havia recém-saído da Manchete, enquanto o autor pretendia escrever pro horário das oito uma novela no Pantanal. Voltaram com quase mil fotos só com água e mato (era época de chuva). A novela foi engavetada. Benedito não se convenceu. Isso que Benedito queria encher Rossano de porrada (segundo ele mesmo contou pra “Biografia da Televisão Brasileira”, de Flávio Ricco e José Armando Vannucci).

Por isso, enquanto escrevia a sombria Vida Nova (1988), que ficou ainda mais sombria por ter sido a última novela do inesquecível ator Lauro Corona, cujo falecimento ocorreu um mês e meio depois do fim da novela, Benedito negociava a sinopse de Pantanal com outras emissoras. Primeiro, Carlos Alberto de Nóbrega, então diretor artístico do SBT, marcou uma reunião entre Benedito e Silvio Santos, que alegou problemas na emissora, deu um chapéu em Benedito e foi negociar com a produtora Mikom, de Guga de Oliveira, os direitos de exibição da novela independente Cortina de Vidro, a primeira escrita por Walcyr Carrasco.

Então, Benedito foi procurado por outro diretor com fama de visionário à época: Jayme Monjardim, diretor artístico da Manchete. Jayme convenceu Benedito a produzir a novela no Pantanal, exibi-la no horário nobre (sendo, inclusive, sucessora de Kananga do Japão) e usar como base a fazenda de um amigo particular de Benedito, o cantor Sérgio Reis. Pois bem: chegado o dia 27 de março de 1990, enquanto a Globo terminava mais um capítulo de Tieta, que costumava dar médias de 60 a 70 pontos, e se preparava para exibir o 1º episódio da excelente série Delegacia de Mulheres (a série certa na época errada), o Jornal da Manchete dava lugar à estreia da promissora novela Pantanal.

A partir de então, os 25 anos da Globo foram literalmente pro brejo. Mais especificamente pra fazenda de José Leôncio. Benedito, pela segunda vez, comprovou que suas novelas poderiam, sim, fazer sucesso tanto às seis da tarde quanto no horário nobre, fosse em que emissora fosse. A Globo, então, não apenas trouxe Benedito de volta como, anos mais tarde, já sob a adaptação do neto deste, Bruno Luperi, Pantanal ganhou uma nova visão. E fez novo sucesso.

Voltando à Globo, emplacou mais três sucessos: Renascer (1993), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999), todas com médias acima dos 40 pontos de audiência. Desnecessário dizer o impacto que estas novelas causaram. A despedida melancólica do horário nobre foi com a acidentada Esperança (2002). Benedito queria que esta fosse uma continuação de Terra Nostra, tendo a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, mas Lauro César Muniz se adiantou e escreveu a “minissérie” Aquarela do Brasil (2000). Sim, “minissérie”, porque teve 60 capítulos, o mínimo exigido pra se chamar uma obra teledramatúrgica praticamente diária de novela.

Só que a Globo também queria algo parecido com Terra Nostra. E Benedito cometeu um dos maiores atentados não apenas à teledramaturgia, como também à sua própria obra. Além das gravações se arrastarem por causa da demora dos capítulos, a novela perdeu 10 pontos em menos de dois meses. Benedito foi pressionado a abrir mão da história, principalmente porque, no meio do caminho, a mãe dele ficou doente, o que de certa forma explica alguns atrasos na entrega dos capítulos. No capítulo 149, Benedito e as filhas, Edmara e Edilene, suas colaboradoras frequentes, saíram da história, sendo substituídos por Walcyr Carrasco e Thelma Guedes. Walcyr não só corrigiu a rota de Esperança, livrando-a do rótulo de pior IBOPE do horário nobre da história, como ganhou a antipatia explícita de Benedito, que disse que Walcyr acabou com a novela dele e que não terminou do jeito que ele queria.

Os últimos grandes sucessos de Benedito como autor principal foram os remakes de Cabocla (2004), agora focando mais na guerra política entre os coronéis Boanerges e Justino, brilhantemente interpretados pelos medalhões Tony Ramos e Mauro Mendonça, Sinhá Moça (2006), que trouxe Osmar Prado na pele do temível Barão de Araruna (e surpreendendo como vilão), e Paraíso (2009), que foi mais dinâmica e bem mais repercutida em relação à primeira versão. No meio do caminho, uma ferrovia. Em 2005, Benedito escreveu a minissérie Mad Maria, baseada no romance de mesmo nome de Márcio Souza, cuja adaptação estava engavetada desde 1977.

Dois anos após o remake de Meu Pedacinho de Chão, já citado aqui, a Globo tirou da gaveta o projeto de Velho Chico, que Benedito tanto desejava escrever desde a década de 70. Benedito começou supervisionando o texto, passando o bastão para Edmara e Bruno Luperi. Só que Edmara acabou se afastando, e Benedito, junto ao neto, passou a escrever aquela que, no fim das contas, não foi, lamentavelmente, a última novela apenas de Umberto Magnani e Domingos Montagner, cujo falecimento nas águas do Velho Chico acabou marcando negativamente para sempre a trama, como também foi a última novela que Benedito escreveu. A audiência não correspondeu, vide que a estética proposta pelo sempre inovador Luiz Fernando Carvalho não agradou.

Logicamente, a carreira de Benedito não pode ser reduzida a uma ou duas novelas. Afinal, a trajetória deste grande autor é tão rica que passaríamos horas tratando de outros projetos, conhecidos ou não, dentro e fora da TV aberta. Mas, como tudo na vida se acaba, nos resta mandar nossas tristes condolências à família, aos amigos e aos fãs do trabalho deste já inesquecível autor de novelas que sai da vida pra entrar na história.

P. S.: No encerrar deste artigo, registramos a perda de mais uma estrela que se apagou, esta cedo demais. Foi a da jornalista Érika Leal, repórter da Record Brasília, que após ficar dois meses em coma por causa de um acidente doméstico, não resistiu e, na mesma terça-feira 07 de julho, perdeu a vida aos 47 anos, deixando duas filhas: Jaqueline, de 19 anos, e Jéssica, de 17.

Além de ser jornalista formada pela UFG, de Goiás, Érika era mestre em Tradução e Interpretação de Idiomas, formada neste curso pela Universidade de Westminster, da Inglaterra. Foi repórter e editora de texto no Grupo Bandeirantes, passando também pelos jornais Tribuna do Brasil e Jornal de Brasília e pela Rádio CBN, até que chegou à Record, onde passou sete anos como repórter de política e cultura.

Foi uma carreira extensa, que poderia ter durado mais, não fosse a fatalidade ter abreviado sua curta, mas já saudosa trajetória. Que em paz descanse.

Postagens mais visitadas deste blog

O povo contra Pedro Henrique Espíndola

O SBT FALIU [41º capítulo]: "Já Chegou a Grade Voadora!"

O SBT FALIU [50º capítulo]: “A Diretoria dos Desesperados”